Os Videntes da Nova Era.
Armando Torres.“Os antigos e os novos videntes representam duas posições extremas ante o mesmo desafio: o resultado da adaptação dos bruxos às circunstâncias históricas muito concretas. Mas hoje os tempos mudaram”. “Pelo desígnio da águia, ao menos uma das linhagens dos novos videntes foi capaz a recanalizar sua tarefa. Os últimos vinte e sete naguais de minha linhagem têm procurado recuperar o espírito ousado dos antigos, mantendo ao mesmo tempo a sobriedade de propósito dos novos. Desse modo, conseguimos reunir a energia suficiente para intentar uma nova e mais equilibrada adaptação dos ensinamentos”. "De acordo com don Juan, na atualidade estão ocorrendo mudanças volumosas na energia que inevitavelmente provocarão o aparecimento de um novo ciclo de guerreiros. Para os diferenciar dos seus antecessores, eu os chamei de videntes modernos ou videntes da nova era".
Antes de seguir adiante com seu relato, Carlos me esclareceu que, para ele, o conceito de "nova era" não tem nada a ver com o movimento místico contemporâneo do mesmo nome, mas que é uma extensão da antiga crença pré-hispânica em uma séries de idades que se sucedem uma depois da outra na história do mundo. Perguntei por que nos seus livros ele não tinha mencionado nada sobre essa nova casta de guerreiros. Respondeu: "Meus livros descrevem uma fase de minha aprendizagem relativa a meu benfeitor e seus companheiros. Embora eles haviam conceitualizado o novo ciclo como uma necessidade estratégica, ainda não era parte de sua vivência imediata. Eles perceberam que suas próprias ações, ao me permitir e estimular a divulgação do conhecimento, fugia muito da regra para os novos videntes. Mas eles deixaram a meu critério encontrar termos adequados para descrever o que estava acontecendo". "Em que momento começaram a surgir esses videntes?" "Apenas estão aparecendo. "Tudo começou com a conquista do México. Os novos videntes tomaram a mudança como um sinal e eles compreenderam que era necessário revisar a tradição. Mas as coisas teriam ficado por ali, se não fosse pela manifestação em nossa linhagem de um ser a quem chamamos 'o desafiante da morte'. Ele devolveu aos novos videntes o sentido da aventura e a fascinação pelo desconhecido. O contato com essa entidade foi decisiva para nós". Avidamente, pedi que me contasse mais sobre o desafiante, um dos personagens mais extraordinários e incompreensíveis de seus livros. Respondeu: "O desafiante é uma entidade de suprema consciência. Nasceu há aproximadamente uns dez mil anos atrás. Mas só se introduziu fisicamente na linhagem pela época do nagual Sebastian, no ano de 1723". "O desafiante é uma pessoa?"
"Foi um homem em outros tempos, quando a sede de saber estava viva e o ser humano se rendia ao seu amor pela Terra. É o expoente típico daquela mentalidade. Se você falasse com ele, notaria que nós compartilhamos uma mesma ânsia de companheirismo, um interesse pelo engrandecimento da consciência. Mas também veria coisas estranhas. Ele vive em outra visão. Seu sentido do 'eu' é muito diferente do nosso, porque abarca uma gama de sensações muito maior, não tem sexo, idade, nacionalidade ou idioma definido. não tem amigos nem parentes; pior ainda, não tem semelhantes. Passa pelo mundo como um fantasma e a maior parte de seu tempo permanece recluso em algum profundo nicho de ensonho. "A contribuição dele para nossa linhagem, tanto em técnicas como em conhecimentos teóricos, foi monumental. Esse guerreiro conhecia todas as artes dos antigos e muito mais! Se pode dizer que foi a partir de sua presença que germinou o ciclo dos videntes modernos. “O segundo sinal de que chegavam tempos de mudança foi a presença na linhagem de um estrangeiro: o nagual Luhan. Como você já sabe, Luhan era chinês. Embora ele tivesse recebido uma alta educação em seu país, seu caráter aventureiro o levou a tornar-se marinheiro, e viveu uma existência errática pelo planeta, até o dia em que sua sorte o colocou no caminho do poder”. "O jovem Luhan tinha desembarcado no porto de Veracruz e passeava à procura de diversão, quando um incidente de azar fez com que ele saísse cambaleando da porta de um bar e fosse colidir de cabeça contra o nagual Santiesteban que não teve tempo de reagir. Este evento, incomum na vida de um bruxo, foi tomado como um sinal. “Você pode imaginar a confusão dos novos videntes! O espírito tinha falado de forma óbvia e ordenado que os segredos vigiados por muitas gerações de guerreiros fossem postos nas mãos de um estranho. Desse modo, Luhan foi aceito como o novo nagual e seu domínio das artes marciais se tornou um patrimônio da linhagem”. "Mas a confirmação desses sinais aconteceu dois séculos depois, quando outro nagual cuja constituição luminosa saía inteiramente do convencional, veio cair nas mãos daquele velho estranho, don Juan Matus. Nem ele nem eu sabíamos disso então, mas o destino do conhecimento dos novos videntes tinha sido selado".