A Evolução do Caminho.
Armando Torres.Essa manhã, Carlos pediu que escolhesse bem minha pergunta, porque tinha pouco tempo para conversar comigo antes embarcar em seu avião.
Comentei que tinha estado lendo seus livros sobre os ciclos de guerreiros que ele chamava de "antigos" e "novos" videntes, mas que a diferença entre eles me escapava. Respondeu que eu tinha escolhido um bom tópico de conversação, já que entender essa diferença era básico para evitar os erros dos antigos. Explicou que, como tudo neste universo, o caminho dos bruxos é evolutivo. Por isso, um nagual é obrigado a se referir aos ensinamentos de uma maneira sempre nova. Como conseqüência dessa estratégia, o nagualismo, como sistema total de práticas, divide-se em castas ou ciclos. “Desde que começou a aventura do homem à procura do espírito até hoje, houve pelo menos três castas de bruxos: os dos primeiros tempos, os videntes antigos e os novos. Os primeiros bruxos viveram faz tanto tempo, que eram muito diferentes de nós. Hoje apenas compreendemos sua visão do mundo, mas sabemos que eles sobreviveram em condições muito difíceis nas quais qualquer um de nós sucumbiria”. “Os antigos videntes foram um refinamento dessa estirpe original. Eles se adaptaram ao solo da América e souberam criar aqui verdadeiras civilizações. Foram homens temerários que usaram o intento a um nível incompreensível para nós. Eles estavam embriagados de poder. Podiam mover pedras gigantescas, voar ou se transformar à vontade. Conviviam com seres inorgânicos e criaram uma cultura à sua medida, repleta de histórias fabulosas”. “As lendas os descrevem com acerto. Esses bruxos são os heróis de nossa mitologia. O que eles procuravam era viver a qualquer preço, e conseguiram!”. “Os antigos começaram a mover seus pontos de aglutinação através do consumo de plantas de poder. Logo, seus mestres inorgânicos lhes indicaram como fazer as coisas. Eles só precisaram de interesse para entender o que é este mundo e esse interesse os levou a desenhar as mais extraordinárias técnicas para a exploração da consciência”. "Mas não pense que os antigos eram só homens de ação. Eles também eram pensadores muito profundos que levaram a arte de compreender até os limites da atenção. Comparado com eles, nós somos umas bestas. Ao homem de agora não lhe interessa a razão de por quê está vivo, por isso não encontra a paz, não se encontra a si mesmo. Nós temos muito o que aprender daqueles precursores que acharam as respostas para o beco sem saída em que nos metemos".
"A que beco se refere?”. “A nossa visão de um mundo de objetos. Essa visão tem sido muito útil, mas, ao mesmo tempo, a pior de nossas calamidades. O interesse do homem atual é o de um animal predador: usar, possuir, aniquilar. Mas esse animal tem se domesticado a si mesmo, condenando-se a viver dentro de um inventário material. Como cada um dos objetos que usa tem uma longa história, o homem moderno vive perdido dentro de sua própria criação”. "Por outro lado, o interesse dos antigos era a relação entre o Cosmos e o ser que vai morrer. Eles conseguiram chegar à sua própria visão. Eles não tinham se esquecido de que nós somos viajantes em uma estação de parada". Perguntei por que, se a visão deles era a correta, chegou o momento em que os antigos foram substituídos pelo ciclo dos novos videntes. Respondeu que VER não é garantia de impecabilidade. “Os antigos não puderam separar de suas práticas uma grande dose de importância pessoal. Como eles desfrutavam do poder sobre seus semelhantes, eles nunca puderam focalizar com claridade a proposta da liberdade total. Embora fossem videntes insuperáveis, foi impossível a eles prever que seu entusiasmo para descobrir o mundo ia terminar metendo-os em compromissos dos quais já não poderiam escapar”. “A maioria dos bruxos atuais são herdeiros dos antigos videntes. Ao ignorar os princípios do guerreiro, desvalorizaram o conhecimento. Eles se tornaram contadores de histórias, herbolários, curandeiros e dançarinos, mas perderam o domínio do ponto de aglutinação. Em muitos casos, eles nem mesmo se lembravam de que esse ponto existe”. “Os novos videntes tentaram dar um basta a tudo isso; aproveitaram a visão dos antigos, mas eles foram mais sábios e mais moderados. Eles cultivaram o intento inflexível e fixaram toda sua atenção no caminho do guerreiro. Desse modo, eles mudaram o intento total das práticas. Ao completar sua energia, alguns deles chegaram a vislumbrar um objetivo mais elevado que a aventura da segunda atenção e propuseram a possibilidade de ser livres”. “Através do ver, os novos videntes descobriram algo aterrador: que o entusiasmo dos antigos serviu de pasto a certas entidades conscientes chupadoras de energia. No princípio, o contrato entre esses seres e os humanos parecia muito bom, nós lhes dávamos parte de nossa energia e eles nos retribuíam com uma ferramenta que então era uma novidade: a razão. Mas, com o tempo, demonstrou-se que o contrato era um roubo. A razão só serve para inventariar as
coisas, não para compreendê-las. Também, deixa um desagradável subproduto que os videntes VÊEM como uma membrana escura que cerca nossa luminosidade: a importância pessoal”. “Para os novos videntes isso era intolerável, porque eles pensaram em uma meta que os antigos nunca avistaram: a possibilidade de nos fundir diretamente com o universo, sem passar pela mediação inorgânica”. "Os novos videntes foram bruxos pragmáticos, apaixonados pela validação. No desejo de apagar de suas práticas todo o vestígio de ego, tornaram-se pessoas desconfiadas. O método deles foi a eliminação: suprimiram tudo aquilo que não apontava diretamente a seu objetivo de liberdade total. O resultado foi que eles conseguiram fixar seu intento no intento mesmo, tornando-se um com ele. Infelizmente, esse método os obrigou a sacrificar enormes porções do conhecimento. "O intento deles foi tão feroz que os levou a se fecharem sobre si mesmos. Eles encheram os ensinamentos de segredos. Considerando que as relações sociais não eram importantes para seus objetivos, eles se isolaram da sociedade, criando seus próprios e seletos grupos. Quase todos foram viver nas montanhas, na selva ou nos desertos onde eles permanecem até hoje, adquirindo características étnicas. Isso, certamente, não lhes ajudou a refinar a arte da espreita; e mais, terminou transformando sua busca de liberdade em um objetivo retórico".
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