sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

 A Massificação do ensinamento.



Em outras de nossas conversações me contou que, apesar de que em muitos aspectos eram opostos, há algo que os antigos e os novos videntes nunca puseram em julgamento: a necessidade de esconder o conhecimento. Eles transformaram o idioma tolteca em um bosque de metáforas, onde quase qualquer coisa podia ser dito com quase qualquer combinação de palavras. E também
foram eles os que afundaram as sociedades pré-hispânicas sob uma carga insuportável de rituais, procedimentos e contra-senhas. Isso, em vez de fortalecer a bruxaria, a debilitou.               "A herança do secreto ainda pesa sobre os grupos de conhecimento, embora eu tenha tentado sacudir isto".                 Perguntei a que se deve o interesse dos bruxos em esconder o ensinamento.                 Respondeu que cada ciclo de videntes teve suas próprias razões para isto.                "Os antigos partiram de uma compreensão de que nós somos transitórios, mas eles se deixaram corromper com sedutoras idéias de sobrevivência. Como resultado, se encheram de importância e caíram na exclusividade. Eram como as pirâmides que construíram: tão evidentes e atraentes quanto herméticas e inacessíveis. Desfrutavam em se manter a distância das pessoas comuns, as quais consideravam indignas e ignorantes. Mas, ao mesmo tempo, eram incapazes de prescindir de uma corte de seguidores. Essa contradição causou longas batalhas pelo domínio do rebanho e destruiu grande parte do verdadeiro conhecimento.                 “A importância pessoal e seus desagradáveis parentes, o secreto e a exclusividade, se alimentam da fixação do ponto de aglutinação. Por isso, o grande interesse dos antigos era gerar tradições rígidas, para desse modo conseguir a máxima estabilidade no seio de suas sociedades. Na realidade, seu interesse pelo espírito estava muito misturado com suas ambições de poder temporal”.                 "Os novos videntes descontinuaram tudo isso porque puseram em primeiro plano a fluidez do ponto de aglutinação. Eles tinham observado que, assim que esse ponto se move, a idéia do secreto se torna uma estupidez, porque no reino da energia não há limites rígidos entre os seres conscientes. Em conseqüência, para eles era de máxima importância descartar a especulação e enfatizar o lado prático do caminho.                 “Porém, logo eles entraram em contato com uma amarga realidade: as pessoas comuns não os entendiam; pelo contrário, elas lhes temiam e tentavam destruí-los onde queira que os descobrissem. O hermetismo dos novos videntes não foi motivado pelos sentimentos de superioridade que moveram seus antecessores, mas por razões de estratégia. Seu hermetismo lhes correspondeu viver uma perseguição extrema e se viram obrigados a se protegerem”.                 “É uma ironia histórica que apesar da legitimidade de seus motivos, com o tempo a estratégia dos novos videntes desencadeou os mesmos efeitos que a arrogância dos antigos.
Depois de séculos de hermetismo, todas as suas energias se voltaram para esconder o conhecimento, e muitos acabaram esquecendo o que era que tinham escondido”.                 "Na atualidade, a modalidade de nossa época está mudando depressa; em conseqüência, também muda algo que parecia imutável: a forma de transmitir os ensinamentos. Os naguais de agora estão forçados a achar novas formas para a energia, ainda que isso signifique jogar fora os mais arraigados costumes".                 "Por que essa mudança?”.                 “Porque as circunstâncias se adiantaram à tradição. Manter oculto o conhecimento já não é mais uma exigência vital. Há quem poderia criticá-lo por divulgá-lo, mas hoje ninguém mata por isso. Assim, continuar com a prática de censurar porções do conhecimento se tornou catastrófico para o objetivo total da bruxaria, pois, ao não ser parte de uma verdadeira espreita, essas porções fermentam dentro de nós e servem de alimento ao arraigado sentido da importância”.                  “Minha primeira medida como nagual foi acabar com o hermetismo de meus antecessores queimando os segredos. A escolha dos guerreiros atuais é a liberdade. Hoje nós podemos dizer o que quisermos, deixando quem nos escuta em posição de aceitar ou não. Isso gerou imediatamente uma extraordinária conseqüência, que os naguais anteriores a mim nunca puderam desfrutar: a massificação das práticas”.                  "A massificação é nossa válvula de segurança. Você pode enganar à mente das pessoas, porque afinal de contas a mente não é algo deles. Mas você não pode confundir a massa luminosa de centenas ou milhares de intentos enfocados em forma coletiva sobre o objetivo da liberdade.                  "A massa é energia, e a energia nos permite romper a estagnação da atenção. Através da prática coletiva dos passes mágicos, eu fui testemunha de uma verdadeira manifestação energética no mundo inteiro, algo que, pela primeira vez, me permitiu acreditar na viabilidade de minha tarefa. Minhas companheiras e eu estamos tão emocionados com o que está acontecendo que não temos palavras para descrevê-lo".

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