quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

 Os Videntes da Nova Era.

Armando Torres.


                       “Os antigos e os novos videntes representam duas posições extremas ante o mesmo desafio: o resultado da adaptação dos bruxos às circunstâncias históricas muito concretas. Mas hoje os tempos mudaram”.              “Pelo desígnio da águia, ao menos uma das linhagens dos novos videntes foi capaz a recanalizar sua tarefa. Os últimos vinte e sete naguais de minha linhagem têm procurado recuperar o espírito ousado dos antigos, mantendo ao mesmo tempo a sobriedade de propósito dos novos. Desse modo, conseguimos reunir a energia suficiente para intentar uma nova e mais equilibrada adaptação dos ensinamentos”.              "De acordo com don Juan, na atualidade estão ocorrendo mudanças volumosas na energia que inevitavelmente provocarão o aparecimento de um novo ciclo de guerreiros. Para os diferenciar dos seus antecessores, eu os chamei de videntes modernos ou videntes da nova era".  
            Antes de seguir adiante com seu relato, Carlos me esclareceu que, para ele, o conceito de "nova era" não tem nada a ver com o movimento místico contemporâneo do mesmo nome, mas que é uma extensão da antiga crença pré-hispânica em uma séries de idades que se sucedem uma depois da outra na história do mundo.                Perguntei por que nos seus livros ele não tinha mencionado nada sobre essa nova casta de guerreiros.                 Respondeu:                "Meus livros descrevem uma fase de minha aprendizagem relativa a meu benfeitor e seus companheiros. Embora eles haviam conceitualizado o novo ciclo como uma necessidade estratégica, ainda não era parte de sua vivência imediata. Eles perceberam que suas próprias ações, ao me permitir e estimular a divulgação do conhecimento, fugia muito da regra para os novos videntes. Mas eles deixaram a meu critério encontrar termos adequados para descrever o que estava acontecendo".                "Em que momento começaram a surgir esses videntes?"                "Apenas estão aparecendo.                "Tudo começou com a conquista do México. Os novos videntes tomaram a mudança como um sinal e eles compreenderam que era necessário revisar a tradição. Mas as coisas teriam ficado por ali, se não fosse pela manifestação em nossa linhagem de um ser a quem chamamos 'o desafiante da morte'. Ele devolveu aos novos videntes o sentido da aventura e a fascinação pelo desconhecido. O contato com essa entidade foi decisiva para nós".                 Avidamente, pedi que me contasse mais sobre o desafiante, um dos personagens mais extraordinários e incompreensíveis de seus livros.                 Respondeu:                "O desafiante é uma entidade de suprema consciência. Nasceu há aproximadamente uns dez mil anos atrás. Mas só se introduziu fisicamente na linhagem pela época do nagual Sebastian, no ano de 1723".                "O desafiante é uma pessoa?"
               "Foi um homem em outros tempos, quando a sede de saber estava viva e o ser humano se rendia ao seu amor pela Terra. É o expoente típico daquela mentalidade. Se você falasse com ele, notaria que nós compartilhamos uma mesma ânsia de companheirismo, um interesse pelo engrandecimento da consciência. Mas também veria coisas estranhas. Ele vive em outra visão. Seu sentido do 'eu' é muito diferente do nosso, porque abarca uma gama de sensações muito maior, não tem sexo, idade, nacionalidade ou idioma definido. não tem amigos nem parentes; pior ainda, não tem semelhantes. Passa pelo mundo como um fantasma e a maior parte de seu tempo permanece recluso em algum profundo nicho de ensonho.               "A contribuição dele para nossa linhagem, tanto em técnicas como em conhecimentos teóricos, foi monumental. Esse guerreiro conhecia todas as artes dos antigos e muito mais! Se pode dizer que foi a partir de sua presença que germinou o ciclo dos videntes modernos.               “O segundo sinal de que chegavam tempos de mudança foi a presença na linhagem de um estrangeiro: o nagual Luhan. Como você já sabe, Luhan era chinês. Embora ele tivesse recebido uma alta educação em seu país, seu caráter aventureiro o levou a tornar-se marinheiro, e viveu uma existência errática pelo planeta, até o dia em que sua sorte o colocou no caminho do poder”.               "O jovem Luhan tinha desembarcado no porto de Veracruz e passeava à procura de diversão, quando um incidente de azar fez com que ele saísse cambaleando da porta de um bar e fosse colidir de cabeça contra o nagual Santiesteban que não teve tempo de reagir. Este evento, incomum na vida de um bruxo, foi tomado como um sinal.               “Você pode imaginar a confusão dos novos videntes! O espírito tinha falado de forma óbvia e ordenado que os segredos vigiados por muitas gerações de guerreiros fossem postos nas mãos de um estranho. Desse modo, Luhan foi aceito como o novo nagual e seu domínio das artes marciais se tornou um patrimônio da linhagem”.               "Mas a confirmação desses sinais aconteceu dois séculos depois, quando outro nagual cuja constituição luminosa saía inteiramente do convencional, veio cair nas mãos daquele velho estranho, don Juan Matus. Nem ele nem eu sabíamos disso então, mas o destino do conhecimento dos novos videntes tinha sido selado". 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

 A Evolução do Caminho.

Armando Torres.

                Essa manhã, Carlos pediu que escolhesse bem minha pergunta, porque tinha pouco tempo para conversar comigo antes embarcar em seu avião.
             Comentei que tinha estado lendo seus livros sobre os ciclos de guerreiros que ele chamava de "antigos" e "novos" videntes, mas que a diferença entre eles me escapava.              Respondeu que eu tinha escolhido um bom tópico de conversação, já que entender essa diferença era básico para evitar os erros dos antigos.              Explicou que, como tudo neste universo, o caminho dos bruxos é evolutivo. Por isso, um nagual é obrigado a se referir aos ensinamentos de uma maneira sempre nova. Como conseqüência dessa estratégia, o nagualismo, como sistema total de práticas, divide-se em castas ou ciclos.             “Desde que começou a aventura do homem à procura do espírito até hoje, houve pelo menos três castas de bruxos: os dos primeiros tempos, os videntes antigos e os novos. Os primeiros bruxos viveram faz tanto tempo, que eram muito diferentes de nós. Hoje apenas compreendemos sua visão do mundo, mas sabemos que eles sobreviveram em condições muito difíceis nas quais qualquer um de nós sucumbiria”.              “Os antigos videntes foram um refinamento dessa estirpe original. Eles se adaptaram ao solo da América e souberam criar aqui verdadeiras civilizações. Foram homens temerários que usaram o intento a um nível incompreensível para nós. Eles estavam embriagados de poder. Podiam mover pedras gigantescas, voar ou se transformar à vontade. Conviviam com seres inorgânicos e criaram uma cultura à sua medida, repleta de histórias fabulosas”.              “As  lendas os descrevem com acerto. Esses bruxos são os heróis de nossa mitologia. O que eles procuravam era viver a qualquer preço, e conseguiram!”.              “Os antigos começaram a mover seus pontos de aglutinação através do consumo de plantas de poder. Logo, seus mestres inorgânicos lhes indicaram como fazer as coisas. Eles só precisaram de interesse para entender o que é este mundo e esse interesse os levou a desenhar as mais extraordinárias técnicas para a exploração da consciência”.              "Mas não pense que os antigos eram só homens de ação. Eles também eram pensadores muito profundos que levaram a arte de compreender até os limites da atenção. Comparado com eles, nós somos umas bestas. Ao homem de agora não lhe interessa a razão de por quê está vivo, por isso não encontra a paz, não se encontra a si mesmo. Nós temos muito o que aprender daqueles precursores que acharam as respostas para o beco sem saída em que nos metemos".  
            "A que beco se refere?”.               “A nossa visão de um mundo de objetos. Essa visão tem sido muito útil, mas, ao mesmo tempo, a pior de nossas calamidades. O interesse do homem atual é o de um animal predador: usar, possuir, aniquilar. Mas esse animal tem se domesticado a si mesmo, condenando-se a viver dentro de um inventário material. Como cada um dos objetos que usa tem uma longa história, o homem moderno vive perdido dentro de sua própria criação”.               "Por outro lado, o interesse dos antigos era a relação entre o Cosmos e o ser que vai morrer. Eles conseguiram chegar à sua própria visão. Eles não tinham se esquecido de que nós somos viajantes em uma estação de parada".                Perguntei por que, se a visão deles era a correta, chegou o momento em que os antigos foram substituídos pelo ciclo dos novos videntes.                Respondeu que VER não é garantia de impecabilidade.               “Os antigos não puderam separar de suas práticas uma grande dose de importância pessoal. Como eles desfrutavam do poder sobre seus semelhantes, eles nunca puderam focalizar com claridade a proposta da liberdade total. Embora fossem videntes insuperáveis, foi impossível a eles prever que seu entusiasmo para descobrir o mundo ia terminar metendo-os em compromissos dos quais já não poderiam escapar”.               “A maioria dos bruxos atuais são herdeiros dos antigos videntes. Ao ignorar os princípios do guerreiro, desvalorizaram o conhecimento. Eles se tornaram contadores de histórias, herbolários, curandeiros e dançarinos, mas perderam o domínio do ponto de aglutinação. Em muitos casos, eles nem mesmo se lembravam de que esse ponto existe”.               “Os novos videntes tentaram dar um basta a tudo isso; aproveitaram a visão dos antigos, mas eles foram mais sábios e mais moderados. Eles cultivaram o intento inflexível e fixaram toda sua atenção no caminho do guerreiro. Desse modo, eles mudaram o intento total das práticas. Ao completar sua energia, alguns deles chegaram a vislumbrar um objetivo mais elevado que a aventura da segunda atenção e propuseram a possibilidade de ser livres”.               “Através do ver, os novos videntes descobriram algo aterrador: que o entusiasmo dos antigos serviu de pasto a certas entidades conscientes chupadoras de energia. No princípio, o contrato entre esses seres e os humanos parecia muito bom, nós lhes dávamos parte de nossa energia e eles nos retribuíam com uma ferramenta que então era uma novidade: a razão. Mas, com o tempo, demonstrou-se que o contrato era um roubo. A razão só serve para inventariar as
coisas, não para compreendê-las. Também, deixa um desagradável subproduto que os videntes VÊEM como uma membrana escura que cerca nossa luminosidade: a importância pessoal”.                “Para os novos videntes isso era intolerável, porque eles pensaram em uma meta que os antigos nunca avistaram: a possibilidade de nos fundir diretamente com o universo, sem passar pela mediação inorgânica”.                 "Os novos videntes foram bruxos pragmáticos, apaixonados pela validação. No desejo de apagar de suas práticas todo o vestígio de ego, tornaram-se pessoas desconfiadas. O método deles foi a eliminação: suprimiram tudo aquilo que não apontava diretamente a seu objetivo de liberdade total. O resultado foi que eles conseguiram fixar seu intento no intento mesmo, tornando-se um com ele. Infelizmente, esse método os obrigou a sacrificar enormes porções do conhecimento.                 "O intento deles foi tão feroz que os levou a se fecharem sobre si mesmos. Eles encheram os ensinamentos de segredos. Considerando que as relações sociais não eram importantes para seus objetivos, eles se isolaram da sociedade, criando seus próprios e seletos grupos. Quase todos foram viver nas montanhas, na selva ou nos desertos onde eles permanecem até hoje, adquirindo características étnicas. Isso, certamente, não lhes ajudou a refinar a arte da espreita; e mais, terminou transformando sua busca de liberdade em um objetivo retórico". 

domingo, 24 de dezembro de 2023

 10


O fim da linhagem. 

Armando Torres. 



Em diversas ocasiões, Carlos afirmou que a linhagem de don Juan Matus terminava com ele. 

Mas quando quis saber algo mais a respeito, assegurou que, no momento, não podia me dar outros detalhes.


"Eu não posso saber com precisão qual será o desígnio do poder. 


Quem sou eu para determinar algo assim? 


Eu sei que a forma tradicional da linhagem à qual eu pertenço acaba comigo. Mas, se vai continuar no futuro sob um novo formato ou não, isso é determinado por uma força superior". Falou que levava anos esperando sinais de continuidade. Concretamente, uma pessoa que tivesse as características luminosas para ser o novo nagual, mas esses sinais não apareciam. Por conseguinte, ele tinha decidido agir de um modo impecável, como se ele fosse o último nagual sobre a terra. Daí sua urgência por contar tudo. "Aproveite-me! - falou. Estou liquidando tudo o que me foi entregue". 


Com tristeza, perguntei se isso significava que, a partir dele, acabava a transmissão do ensinamento.             


Respondeu:           


“Não. Meu destino é fechar uma linha, só isso. Estou seguro de que o espírito achará a forma de seguir adiante, porque a corrente do conhecimento não pode parar”.          


  "A extinção de uma linhagem de bruxos ou o nascimento de outra são incidentes constantes no vai e vem da energia. Sei de vários grupos de guerreiros que estão vivos na atualidade, preparando-se para o salto final, e também posso prever o começo de um novo ciclo, correspondente à renovação dos paradigmas culturais para o próximo milênio".

sábado, 23 de dezembro de 2023

 Os passes mágicos.



Durante anos, Carlos tinha ensinado a pequenos grupos alguns movimentos aos quais ele chamava "passes mágicos", porque, de acordo com ele, serviam para impedir que a energia se estagnasse e formasse "bolas". Entre estes estava "o toque do tambor", "o flechaço à direita e a esquerda", "o dínamo" e vários outros. Ele disse que don Juan os praticava a qualquer hora do dia
e em qualquer lugar em que estivesse. A maioria das vezes os fazia antes ou depois de carregar algo, ou quando havia estado um longo tempo em uma única posição.             O assunto me interessou muito, pois eu praticava por minha conta algumas posturas orientais e tinha uma grande inclinação aos exercícios físicos.  Portanto, na primeira oportunidade que eu tive, perguntei onde ele tinha aprendido os passes mágicos.             Respondeu:            "São a herança dos antigos videntes".            Naquele tempo ele não se deixava ver muito em público. Mas, pouco a pouco, foi flexibilizando seu hermetismo e começaram a se aproximar grandes grupos de pessoas. Por causa da divulgação, Carlos começou a mudar o desenho dos passes, fazendo-os mais complicados e dividindo-os em categorias. Acabou pondo-lhes um nome tirado da arquitetura: Tensegridade. E, como ele nos disse, era a combinação de dois termos, tensão e integridade.            Desde o primeiro momento houve alguns detratores, pessoas ressentidas que, sem parar para avaliar o lado prático desses exercícios, começaram a propagar que o nagual os havia tirado da manga.            Quando comentei minha inquietude a respeito, ele foi firme:           “A Tensegridade é meu intento! Um nagual tem autoridade e esse é meu presente ao mundo”.           "Don Juan e seus guerreiros ensinaram a seus aprendizes muitos movimentos específicos que nos encheram de energia e bem-estar; que nos ajudaram a sacudir o domínio da mente alienígena. Meu papel foi modificá-los ligeiramente, tirando-os do aspecto pessoal e adaptandoos à generalidade das pessoas, de forma que eles sejam úteis a outros grupos de praticantes".            Contou que o método que ele tinha escolhido no princípio, de ensinar os passes mágicos de forma limitada, foi em certo sentido um fracasso, já que aqueles que se animaram a praticar eram muito poucos para acumular a suficiente "massa energética". Assim, nesta nova fase, ele tinha criado um sistema capaz de causar impacto na consciência das multidões.           “Minhas companheiras e eu abriremos uma grande porta na energia. Essa fissura é tão poderosa que perdurará durante eras e os que se aproximarem para olhar serão engolidos para o outro mundo. Com a Tensegridade, o que eu busco é treinar aos interessados para que suportem essa transição. Aqueles que não tenham a disciplina necessária, perecerão no intento”.           "O plano de divulgar o ensinamento é o resumo de trinta anos de práticas e experiências. Como homem e como nagual, eu fiz tudo o que pude para que isto funcione, porque sei que a massa congregada de muitos guerreiros pode causar uma comoção na modalidade de nossa época". 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

 A Massificação do ensinamento.



Em outras de nossas conversações me contou que, apesar de que em muitos aspectos eram opostos, há algo que os antigos e os novos videntes nunca puseram em julgamento: a necessidade de esconder o conhecimento. Eles transformaram o idioma tolteca em um bosque de metáforas, onde quase qualquer coisa podia ser dito com quase qualquer combinação de palavras. E também
foram eles os que afundaram as sociedades pré-hispânicas sob uma carga insuportável de rituais, procedimentos e contra-senhas. Isso, em vez de fortalecer a bruxaria, a debilitou.               "A herança do secreto ainda pesa sobre os grupos de conhecimento, embora eu tenha tentado sacudir isto".                 Perguntei a que se deve o interesse dos bruxos em esconder o ensinamento.                 Respondeu que cada ciclo de videntes teve suas próprias razões para isto.                "Os antigos partiram de uma compreensão de que nós somos transitórios, mas eles se deixaram corromper com sedutoras idéias de sobrevivência. Como resultado, se encheram de importância e caíram na exclusividade. Eram como as pirâmides que construíram: tão evidentes e atraentes quanto herméticas e inacessíveis. Desfrutavam em se manter a distância das pessoas comuns, as quais consideravam indignas e ignorantes. Mas, ao mesmo tempo, eram incapazes de prescindir de uma corte de seguidores. Essa contradição causou longas batalhas pelo domínio do rebanho e destruiu grande parte do verdadeiro conhecimento.                 “A importância pessoal e seus desagradáveis parentes, o secreto e a exclusividade, se alimentam da fixação do ponto de aglutinação. Por isso, o grande interesse dos antigos era gerar tradições rígidas, para desse modo conseguir a máxima estabilidade no seio de suas sociedades. Na realidade, seu interesse pelo espírito estava muito misturado com suas ambições de poder temporal”.                 "Os novos videntes descontinuaram tudo isso porque puseram em primeiro plano a fluidez do ponto de aglutinação. Eles tinham observado que, assim que esse ponto se move, a idéia do secreto se torna uma estupidez, porque no reino da energia não há limites rígidos entre os seres conscientes. Em conseqüência, para eles era de máxima importância descartar a especulação e enfatizar o lado prático do caminho.                 “Porém, logo eles entraram em contato com uma amarga realidade: as pessoas comuns não os entendiam; pelo contrário, elas lhes temiam e tentavam destruí-los onde queira que os descobrissem. O hermetismo dos novos videntes não foi motivado pelos sentimentos de superioridade que moveram seus antecessores, mas por razões de estratégia. Seu hermetismo lhes correspondeu viver uma perseguição extrema e se viram obrigados a se protegerem”.                 “É uma ironia histórica que apesar da legitimidade de seus motivos, com o tempo a estratégia dos novos videntes desencadeou os mesmos efeitos que a arrogância dos antigos.
Depois de séculos de hermetismo, todas as suas energias se voltaram para esconder o conhecimento, e muitos acabaram esquecendo o que era que tinham escondido”.                 "Na atualidade, a modalidade de nossa época está mudando depressa; em conseqüência, também muda algo que parecia imutável: a forma de transmitir os ensinamentos. Os naguais de agora estão forçados a achar novas formas para a energia, ainda que isso signifique jogar fora os mais arraigados costumes".                 "Por que essa mudança?”.                 “Porque as circunstâncias se adiantaram à tradição. Manter oculto o conhecimento já não é mais uma exigência vital. Há quem poderia criticá-lo por divulgá-lo, mas hoje ninguém mata por isso. Assim, continuar com a prática de censurar porções do conhecimento se tornou catastrófico para o objetivo total da bruxaria, pois, ao não ser parte de uma verdadeira espreita, essas porções fermentam dentro de nós e servem de alimento ao arraigado sentido da importância”.                  “Minha primeira medida como nagual foi acabar com o hermetismo de meus antecessores queimando os segredos. A escolha dos guerreiros atuais é a liberdade. Hoje nós podemos dizer o que quisermos, deixando quem nos escuta em posição de aceitar ou não. Isso gerou imediatamente uma extraordinária conseqüência, que os naguais anteriores a mim nunca puderam desfrutar: a massificação das práticas”.                  "A massificação é nossa válvula de segurança. Você pode enganar à mente das pessoas, porque afinal de contas a mente não é algo deles. Mas você não pode confundir a massa luminosa de centenas ou milhares de intentos enfocados em forma coletiva sobre o objetivo da liberdade.                  "A massa é energia, e a energia nos permite romper a estagnação da atenção. Através da prática coletiva dos passes mágicos, eu fui testemunha de uma verdadeira manifestação energética no mundo inteiro, algo que, pela primeira vez, me permitiu acreditar na viabilidade de minha tarefa. Minhas companheiras e eu estamos tão emocionados com o que está acontecendo que não temos palavras para descrevê-lo".

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

 O Compromisso o  É Com O Ensonho.



Quando contei que eu havia estado freqüentando certos grupos da tradição mexicana à procura das chaves do conhecimento antigo, Carlos o tomou como se fosse uma piada e começou a rir. Observando minha reação de desconcerto, pediu que não interpretasse seu riso como uma alusão pessoal. O que acontecia era que minhas investigações lhe recordavam seus próprios passos quando ele tinha chegado ao México como um estudante à procura de informação.               Explicou que, de acordo com os ensinamentos de don Juan e pelo que ele mesmo tinha podido descobrir, há dois tipos de tradição: a formal e a energética. Uma não tem nada a ver com a outra.              "A tradição formal se apóia no segredo e na conservação das rotinas, transmite alegorias e produz pastores e rebanhos. A tradição energética maneja realizações concretas, como o VER e o movimento do ponto de aglutinação; sua fortaleza é a renovação e a experimentação,e produz guerreiros impecáveis.              "Um guerreiro se entrega à sua tarefa, não gasta sua energia seguindo a ninguém. Os costumes sociais os têm sem cuidado, não importa que sejam contemporâneos ou que tenham milênios de tradição. Ademais, o secreto não faz parte de sua espreita".                Respondi que, na minha opinião, a existência de um conhecimento ancestral em diversas tradições da Terra está justificada no fato de que suas técnicas de manipulação da consciência não podem ser dadas por meio de livros, mas oralmente. A interação com um mestre de sabedoria tem que ser pessoal.               Comentou:              "Isso você leu por aí, verdade?"               Ambos rimos.                Falou que o conhecimento verdadeiramente útil é muito simples e cabe em umas poucas palavras
             "Não é necessário formar tanto estrondo com ele, e não importa como é transmitido. Se é de forma oral, que bom; mas qualquer outro meio serve igualmente. A coisa importante é convencer-se a si mesmo de que não há tempo para tolices, porque a morte vem pisando nossos calcanhares. Fora dessa verdade, é muito pouco o que um guerreiro necessita, porque o sentido da urgência o levará a economizar sua energia e a energia acumulada lhe permitirá descobrir sua totalidade".               Comentei que, de acordo com o que eu tinha lido, a divulgação do conhecimento secreto é uma característica da atividade dos bruxos "negros"; por outro lado, os "brancos" transmitem o que sabem com cautela, porque eles estão conscientes de que o conhecimento envolve certo perigo para os que não estão preparados para recebê-lo.               Carlos moveu a cabeça com incredulidade.              “Mas, o que acontece com você? - perguntou. O que nos destrói é a ignorância, não o conhecimento! Não há nada nas profundezas do conhecimento que possa pôr em risco os autênticos interesses do homem!”.              "Você parte de uma idéia errônea, mas muito comum: que há dois tipos de conhecimento o de 'fora' e o de 'dentro'. Os videntes, por outro lado, dizem que o conhecimento é um e o que não o leva diretamente à liberdade, não vale a pena. Para eles é ao contrário do que você diz; a feitiçaria escura dos antigos está associada com os segredos, enquanto a transparência é característica dos novos videntes".              "Então, Carlos, você nega a existência de certo conhecimento iniciático dentro da tradição mexicana?"                Em vez de responder, Carlos exigiu que lhe definisse o termo 'iniciado'. Isto me pôs em apuros, porque na realidade eu não tinha uma idéia muito clara a esse respeito. Fazendo um esforço, expliquei que os iniciados são as pessoas que, graças a seus méritos, são receptores de certos conhecimentos tradicionais que o resto de seus semelhantes não possuem.                  Enquanto eu falava, Carlos concordava com gravidade. Quando terminei, ele comentou:                 "Essa definição é um retrato da importância que você concede a si mesmo.
               Sustentou que classificar os seres humanos pelo que sabem é um mero arranjo do inventário coletivo, algo assim como fazer distinções entre as formigas de uma fileira porque algumas são mais escurinhas que as outras.                  "O irônico é que, na realidade, os humanos sim se dividem em dois grupos: os que dissipam sua energia e os que a conservam. A estes últimos você pode chamá-los como quiser: bruxos, toltecas, iniciados; é o mesmo, tenham um mestre ou não tenham. Sua realidade luminosa é tal que estão a um passo da liberdade. O que ninguém pode ensinar, os guerreiros obtêm deles mesmos ouvindo os comandos silenciosos do espírito.                   “Abrir-se ao poder é um processo natural. Nenhum homem pode dizer para outro: ‘você está aberto!’ - a menos que seja um farsante. Tampouco existe um atalho que nos leve de forma automática à liberdade. Os segredos iniciáticos são símbolos da arrogância dos antigos, chaves sem portas que não conduzem a nenhum lugar. Você gasta sua vida procurando-os e no fim, quando os obtém, você descobre que não tem nada”.                    “Você acredita que o que diferencia o conhecimento é o modo como é transmitido, se é por livros ou por tradição oral. Não pensa que ambos os meios são a mesma coisa, porque ambos pertencem a nosso consenso cotidiano. Que importância tem o modo que você receba a informação? O que importa é que você se convença para que atue!”.                     "O método dos bruxos é a economia sistemática da energia. Eles afirmam que, o que separa os homens não é o que sabem, mas quanta energia possuem. A verdadeira forma de transmitir o conhecimento é em estados acrescentados de consciência. O compromisso dos bruxos não é com um livro ou com uma cerimônia, mas com o ensonho. Quando um guerreiro aprender a capturar a experiência através de seus sonhos, já não importa como lhe são apresentados os ensinamentos, posto que sua percepção é pura e ele pode corroborá-la com seu ver.

domingo, 17 de dezembro de 2023

 9

Uma Nova Etapa do Conhecimento.

Ao terminar a apresentação do seu novo livro, saímos caminhando pela avenida dos Insurgentes. Era uma noite um pouco fria e surpreendentemente clara.
O ar cheirava a limpeza.             

Enquanto passeávamos, Carlos comentou que não gostava desse tipo de atividade pela quantidade de bajuladores que se reuniam e porque lhe obrigavam a brindar com champanhe.
A técnica dele era manter um cálice cheio durante todo o evento, sem provar um gole; desse modo paravam de convidá-lo.               
Acrescentou que sua carreira literária começou com um desafio.
Em certa ocasião don Juan lhe propôs que, a fim de usar a grande quantidade de notas que ele tinha acumulado durante seu ensinamento, escrevesse um livro.
No princípio ele considerou isto como uma brincadeira, já que ele não era um escritor. Porém, don Juan fez a sugestão como um exercício de bruxaria.             

A partir daí, ele começou a tomar gosto pelo seu trabalho e terminou compreendendo que, para ele, os livros eram uma avenida à sua verdadeira missão como nagual.                Perguntei se ele não temia que a divulgação do ensinamento entre todo tipo de público acabasse corrompendo-o.               
“Não!
- respondeu.
O que degenera o conhecimento é o hermetismo; por outro lado, colocá-lo ao alcance das pessoas o renova.
Não há nada mais saudável para a energia que a fluidez, e isso implica, em primeiro lugar, ao conhecimento dos bruxos. Somos recipientes temporários do poder, não temos o direito de retê-lo. Ademais, este conhecimento só faz sentido para aqueles que o praticam e alcançam a energia necessária para corroborá-lo. O resto não importa.

Eu entrei no mundo do nagual no momento exato em que era necessário uma ruptura.
Isso me forçou a tomar a decisão mais dramática de minha vida: publicar os ensinamentos. Foi muito duro para mim ser o divisor de águas da situação, e durante anos vivi com o trauma de não entender o que estava fazendo. Inclusive houve pessoas que me escreveram cartas ameaçadoras em nome da tradição; os bruxos da velha guarda não queriam perder suas prerrogativas.
                Comentei o extraordinário que me parecia que ele houvesse escolhido romper de um modo frontal com a tradição milenária do hermetismo. 

Eu não rompi nada! - replicou. O comando do espírito foi claro e não fiz outra coisa senão seguí-lo.

No começo de minha aprendizagem fui preparado para tomar as rédeas da linhagem.
Um dia tudo mudou.
Os guerreiros do grupo viram que minha estrutura energética era diferente da do nagual Juan Matus, e interpretaram-na como um comando inapelável. Como dita a regra, eles puseram em minhas mãos a pesada responsabilidade de fechar a linhagem.
                Durante séculos, os grupos de guerreiros tinham agido como uma esponja, absorvendo experiência para corroborar os sofisticados princípios do caminho do conhecimento. A única saída que me restava foi devolver esse conhecimento às pessoas.

O ciclo de meus livros é um começo, um humilde intento de pôr ao alcance do homem moderno fragmentos de um conhecimento que durante gerações ficou escondido.
O momento das corroborações virá depois e a esse seguirão outros ciclos, porque, uma vez que o ensinamento dos bruxos chegue às mãos do público, será inevitável que alguns comecem a questionar-se e experimentar com a percepção, descobrindo deste modo todo o potencial do qual nós somos capazes.
               Perguntei qual havia sido a reação de don Juan e seus companheiros quando eles souberam que os segredos do grupo estavam sendo divulgados.                  Respondeu:       

Eu já contei como em uma ocasião, ao levar uma cópia de um de meus livros para don Juan, ele o devolveu com um comentário desdenhoso. Isso é só a metade da verdade.
O fato é que ele foi o autor desses textos. Não que os haja escrito letra por letra, mas que assumiu a responsabilidade pelo assunto e supervisionou cada uma de minhas afirmações. Com o tempo, descobri que a estratégia de don Juan tinha sido cuidadosamente calculada”.                 “O plano do nagual é de um atrevimento supremo e de uma simplicidade genial. Ele introduziu publicamente o conhecimento dos videntes, não para o engrandecimento das academias, mas para a elevação do nível de consciência das massas; e o introduziu através das próprias instituições que o poderiam refutar. Ele sabia que expor os ensinamentos por meio de um formato místico ou religioso não calaria tão fundo quanto uma apresentação apoiada com o aval da ciência. Por isso me exigiu que redigisse meu primeiro livro como uma tese universitária”.                "A operação do nagual Juan Matus começa como uma nova etapa na transmissão do conhecimento, uma etapa sem precedentes. Nunca antes os segredos do movimento do ponto de aglutinação haviam sido postos por escrito!".