O Compromisso o É Com O Ensonho.
Quando contei que eu havia estado freqüentando certos grupos da tradição mexicana à procura das chaves do conhecimento antigo, Carlos o tomou como se fosse uma piada e começou a rir. Observando minha reação de desconcerto, pediu que não interpretasse seu riso como uma alusão pessoal. O que acontecia era que minhas investigações lhe recordavam seus próprios passos quando ele tinha chegado ao México como um estudante à procura de informação. Explicou que, de acordo com os ensinamentos de don Juan e pelo que ele mesmo tinha podido descobrir, há dois tipos de tradição: a formal e a energética. Uma não tem nada a ver com a outra. "A tradição formal se apóia no segredo e na conservação das rotinas, transmite alegorias e produz pastores e rebanhos. A tradição energética maneja realizações concretas, como o VER e o movimento do ponto de aglutinação; sua fortaleza é a renovação e a experimentação,e produz guerreiros impecáveis. "Um guerreiro se entrega à sua tarefa, não gasta sua energia seguindo a ninguém. Os costumes sociais os têm sem cuidado, não importa que sejam contemporâneos ou que tenham milênios de tradição. Ademais, o secreto não faz parte de sua espreita". Respondi que, na minha opinião, a existência de um conhecimento ancestral em diversas tradições da Terra está justificada no fato de que suas técnicas de manipulação da consciência não podem ser dadas por meio de livros, mas oralmente. A interação com um mestre de sabedoria tem que ser pessoal. Comentou: "Isso você leu por aí, verdade?" Ambos rimos. Falou que o conhecimento verdadeiramente útil é muito simples e cabe em umas poucas palavras
"Não é necessário formar tanto estrondo com ele, e não importa como é transmitido. Se é de forma oral, que bom; mas qualquer outro meio serve igualmente. A coisa importante é convencer-se a si mesmo de que não há tempo para tolices, porque a morte vem pisando nossos calcanhares. Fora dessa verdade, é muito pouco o que um guerreiro necessita, porque o sentido da urgência o levará a economizar sua energia e a energia acumulada lhe permitirá descobrir sua totalidade". Comentei que, de acordo com o que eu tinha lido, a divulgação do conhecimento secreto é uma característica da atividade dos bruxos "negros"; por outro lado, os "brancos" transmitem o que sabem com cautela, porque eles estão conscientes de que o conhecimento envolve certo perigo para os que não estão preparados para recebê-lo. Carlos moveu a cabeça com incredulidade. “Mas, o que acontece com você? - perguntou. O que nos destrói é a ignorância, não o conhecimento! Não há nada nas profundezas do conhecimento que possa pôr em risco os autênticos interesses do homem!”. "Você parte de uma idéia errônea, mas muito comum: que há dois tipos de conhecimento o de 'fora' e o de 'dentro'. Os videntes, por outro lado, dizem que o conhecimento é um e o que não o leva diretamente à liberdade, não vale a pena. Para eles é ao contrário do que você diz; a feitiçaria escura dos antigos está associada com os segredos, enquanto a transparência é característica dos novos videntes". "Então, Carlos, você nega a existência de certo conhecimento iniciático dentro da tradição mexicana?" Em vez de responder, Carlos exigiu que lhe definisse o termo 'iniciado'. Isto me pôs em apuros, porque na realidade eu não tinha uma idéia muito clara a esse respeito. Fazendo um esforço, expliquei que os iniciados são as pessoas que, graças a seus méritos, são receptores de certos conhecimentos tradicionais que o resto de seus semelhantes não possuem. Enquanto eu falava, Carlos concordava com gravidade. Quando terminei, ele comentou: "Essa definição é um retrato da importância que você concede a si mesmo.
Sustentou que classificar os seres humanos pelo que sabem é um mero arranjo do inventário coletivo, algo assim como fazer distinções entre as formigas de uma fileira porque algumas são mais escurinhas que as outras. "O irônico é que, na realidade, os humanos sim se dividem em dois grupos: os que dissipam sua energia e os que a conservam. A estes últimos você pode chamá-los como quiser: bruxos, toltecas, iniciados; é o mesmo, tenham um mestre ou não tenham. Sua realidade luminosa é tal que estão a um passo da liberdade. O que ninguém pode ensinar, os guerreiros obtêm deles mesmos ouvindo os comandos silenciosos do espírito. “Abrir-se ao poder é um processo natural. Nenhum homem pode dizer para outro: ‘você está aberto!’ - a menos que seja um farsante. Tampouco existe um atalho que nos leve de forma automática à liberdade. Os segredos iniciáticos são símbolos da arrogância dos antigos, chaves sem portas que não conduzem a nenhum lugar. Você gasta sua vida procurando-os e no fim, quando os obtém, você descobre que não tem nada”. “Você acredita que o que diferencia o conhecimento é o modo como é transmitido, se é por livros ou por tradição oral. Não pensa que ambos os meios são a mesma coisa, porque ambos pertencem a nosso consenso cotidiano. Que importância tem o modo que você receba a informação? O que importa é que você se convença para que atue!”. "O método dos bruxos é a economia sistemática da energia. Eles afirmam que, o que separa os homens não é o que sabem, mas quanta energia possuem. A verdadeira forma de transmitir o conhecimento é em estados acrescentados de consciência. O compromisso dos bruxos não é com um livro ou com uma cerimônia, mas com o ensonho. Quando um guerreiro aprender a capturar a experiência através de seus sonhos, já não importa como lhe são apresentados os ensinamentos, posto que sua percepção é pura e ele pode corroborá-la com seu ver.
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